A Ressurreição de um Ícone do Fuzz-Wah Nacional dos Anos 1960/70
No final da década de 1960 (entre 1968 e 1972), o cenário musical brasileiro vivia a efervescência da Tropicália e a consolidação do rock psicodélico. Diante das rigorosas barreiras alfandegárias que impediam a importação livre de equipamentos estrangeiros, a indústria de áudio nacional respondeu com enorme criatividade e rigor de engenharia. A Malagoli, fundada pelo pioneiro Élio Malagoli, desenvolveu a histórica linha Sound (modelos I, II e III), consagrada como uma das primeiras famílias de pedais de efeito produzidas em escala no Brasil.
O Pedal Sound II destaca-se por sua arquitetura híbrida e arrojada: ele integra um circuito de Fuzz baseado no lendário Sola Sound Tone Bender Professional MKII britânico — imortalizado por guitarristas como Jimmy Page e Jeff Beck — a um efeito de Wah-Wah acionado por uma balança mecânica de borracha. Equipado com três transistores de germânio, o circuito de Fuzz do Sound II entrega uma distorção encorpada, rica em harmônicos ímpares e com sustentação prolongada, enquanto a etapa de Wah-Wah proporciona aquela varredura orgânica e vocal característica do rock clássico.
O exemplar deu entrada no laboratório da Renato Costa Audio Works em estado crítico: adquirido como sucata, o pedal estava totalmente inoperante. Apresentava fiação interna desconectada ou soldada em pontos incorretos por tentativas prévias e desastrosas de reparo, além da visível degradação de seus componentes eletromecânicos após mais de cinco décadas de exposição ao tempo.
Restaurar um equipamento dessa relevância exige um trabalho minucioso de arqueologia eletrônica: resgatar a plena funcionalidade e confiabilidade para palco ou estúdio sem comprometer a identidade tonal e o valor histórico do projeto original de época.
O indutor é o coração do circuito de Wah-Wah, responsável por determinar o pico de ressonância e a curva de varredura do filtro LC. O diagnóstico de bancada revelou que o indutor original estava com o enrolamento de cobre aberto (interrompido). Para evitar a substituição por um componente moderno genérico — o que descaracterizaria a resposta de frequência vintage —, realizou-se o delicado reparo na própria bobina original, reestabelecendo a continuidade elétrica da fiação e preservando a indutância exata projetada pela Malagoli nos anos 60.
Devido a intervenções inadequadas efetuadas no passado, a fiação interna encontrava-se totalmente desordenada e com conexões errôneas que causavam curto ao sinal. A partir da análise das trilhas da placa de fenolite e do mapeamento das chaves seletores e potenciômetros, todas as ligações elétricas foram refeitas com solda limpa e fiação padronizada, garantindo o roteamento correto do áudio, chaveamento de bypass e alimentação de 9V.
A análise dos componentes revelou que os capacitores eletrolíticos originais sofriam de ressecamento severo do efluente interno, resultando em perda drástica de capacitância e altíssima Resistência Série Equivalente (ESR). Foi executado o recap completo, instalando componentes eletrolíticos novos de alta qualidade e baixíssima tolerância para assegurar a perfeita filtragem, desacoplamento e passagem da resposta de graves.
• Potenciômetros e Chaves: Todos os componentes móveis (potenciômetros de volume, ataque e varredura do Wah, além das chaves de acionamento) passaram por desoxidação química e lubrificação técnica para eliminar ruídos de raspagem e mau contato.
• Chassi e Carcaça: O gabinete metálico e a balança mecânica de borracha foram higienizados e conservados, removendo a sujeira e a oxidação acumuladas ao longo de mais de 50 anos.
Após a montagem final, ajuste de tensão de bias dos transistores de germânio e calibração do curso mecânico do pedal de expressão, o Pedal Sound II foi submetido aos testes dinâmicos em amplificador valvulado. O resultado foi surpreendente: a saturação quente e cremosa do circuito Tone Bender MKII aliada ao filtro vocal do Wah-Wah devolveu ao equipamento toda a expressividade e garra sonora que marcaram a era de ouro da música brasileira.
Este trabalho exemplifica o compromisso da Renato Costa Audio Works: unir o rigor da engenharia eletrônica à paixão pela preservação histórica, resgatando do esquecimento peças fundamentais do patrimônio musical brasileiro.